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Sam ao Luar

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20
Out21

Desafio Arte e Inspiração - Sobreiro

Sam ao Luar

Desafio Arte e inspiração

Participam no desafio: Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, ConchaCristina AveiroFátima Bento GorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe Fritosetepartidas

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Sobreiro de D. Carlos de Bragança

Lá na aldeia, os homens preparavam-se para o descortiçamento dos sobreiros. Corria já o mês de Maio e o tempo estava quente. O José arrependeu-se de ter vestido aquela camisa de flanela mas era confortável para o trabalho que se avizinhava e, além disso, sabia que a Maria ia estar perto. Queria sentir-se apresentável.

Os homens seguiram para o sobreiral, munidos com as suas "armas" de trabalho. Era, sem dúvida, uma manifestação de virilidade. Era coisa bonita de se ver.

A Maria não conseguia parar de fitar o José ao longe e esperou pacientemente pela hora da pausa. Saiu sorrateiramente da sua sombra agradável e da companhia das senhoras da aldeia que, enquanto faziam as suas rendas de bilros, conversavam sobre a vida alheia. Piscou-lhe o olho.

Mesmo ao longe, o José adivinhou-lhe o pensamento e, com a desculpa de que ia verter águas, saiu da beira dos homens que lanchavam regueifa com chourição.

Encontraram-se junto à fonte, lá mais longe. Ela estava corada, não só do calor, mas do nervosismo e da ansiedade de se aproximar do José. Ele estava com saudades de tocar na mão dela. "Como estás?", perguntou ela baixinho. "Estás linda!", respondeu ele, roubando-lhe um beijo. Não disseram mais nada. Olharam profundamente nos olhos um do outro, adivinhando todo um futuro que os aguardava. Sentiram a brisa na cara. De mãos dadas, o tempo passou rápido demais.

José! - ouviram chamar. "Até logo, princesa". Ela corou muito. Refrescaram-se na água da fonte, para não dar a entender. Cada um regressou ao seu trabalho, aguardando impacientemente pelo dia de amanhã e por aquele pequeno momento tão grande de amor.

 

 

 

13
Out21

Desafio Arte e Inspiração - El Sueño

Sam ao Luar

Desafio Arte e inspiração

Participam no desafio: Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, ConchaCristina AveiroFátima Bento GorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe Fritosetepartidas

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El Sueño por Frida Khalo

A minha infância passei-a em casa dos avós maternos com os meus primos. Sou da geração que nasceu na década de 80, éramos felizes e livres. Divertíamo-nos a atirar água aos carros que passavam com uma bisnaga, a molhar os pés no tanque grande no verão, a subir ao limoeiro que existia no meu do galinheiro e sentávamo-nos na cama grande a comer bolachas Maria e a ver a Rua Sésamo. Esmurrávamos os joelhos a andar de bicicleta e a cair, e aprendíamos assim a lidar com a dor e a vergonha de ter caído. Era a minha "casa". A minha avó fazia cevada com pão torrado com manteiga no fogão com bico de gás, ficava torrado mas não faz mal, e ainda me lembro do cheiro.

Crescemos, perdemos muita coisa. Deixamos de ser princesas, piratas, polícias e ladrões. 

Um dia a minha irmã liga-me, disse que a Cinda estava mal. Ela já estava muito doente há algum tempo. Nesse final de dia, voltei de novo à minha casa. Ela tinha os pés frios, calcei-lhe umas meias quentinhas. Sentei-me ao seu lado, peguei-lhe na mão. Agradeci-lhe por ter tomado tão bem conta de nós e ter sido uma boa avó. Ajudei o meu avô a dar-lhe a sopa.

Em casa, ao adormecer o meu filho, cantei-lhe a música "Se essa rua fosse minha" para adormecer. A minha avó faleceu doente nessa noite. Faleceu, em mim, uma parte do meu coração. Quanto ao meu avó, faleceu mais tarde, com saudades da minha avó com certeza. Eu estou feliz que eles estejam finalmente juntos. Eu sei que quando for, vou para junto deles. 

A música, quando a canto hoje, choro com saudades e sinto os meus avós junto a mim. Ensinei, entretanto, uma oração ao meu filho, que aprendi algures no tempo, e adaptei. Tenho a certeza que sempre que a diz os meus avós estão junto dele. Não sou crente, mas acredito.

"Anjo da Guarda, minha companhia,

Guarda a minha alma, de noite e de dia,

e os meus sonhos também."

 

 

29
Set21

Desafio Arte e Inspiração - O Grito

Sam ao Luar

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O Grito de Edvard Munch

Para quase toda a gente neste mundo, o ano de 2001 foi marcado pela queda das Torres Gémeas, nos Estados Unidos. Uma tragédia sem igual. As imagens são impressionantes, toda a gente recorda com amargura. Foi o ano em que o mundo mudou a todos os níveis: economica, política e socialmente. De repente, passamos a odiar um povo que nem sequer conhecíamos. Guerras foram feitas, inocentes morreram, outros tantos enriqueceram e o planeta continuou a girar.

O ano de 2001 foi também marcado por um evento que apenas um povo se lembra e, mesmo assim, apenas um punhado de pessoas se recorda. A Queda da Ponte de Entre-os-Rios. Foi em Março, antes da queda das torres e é natural que um dos eventos tenha escondido o outro. Bem no fundo, no recanto obscuro da memória.

O ser humano tem a capacidade de conseguir colocar-se no lugar do próximo e sentir o que ele sente. Com esforço, consegue vivenciar tanto a alegria como a tristeza e a dor. Chama-se empatia, mas nem todos querem treiná-la. Por preguiça. É doloroso sentir as dores do outro. Quero com isto dizer que o nosso esforço permite-nos colocar no lugar de dois indivíduos diferentes: aquele que morreu dentro de uma torre em queda e que morreu rápido. Tragicamente. Ou aquele que de repente lhe viu o chão fugir debaixo dos pés, no escuro, caiu na água fria, morreu agonizando vendo os seus amigos ou família a agonizar também. E nunca mais apareceu.

Os familiares, amigos, conterrâneos daquele concelho preso junto ao rio Douro, ainda gritam em silêncio junto aos destroços de uma vida destruída pelas saudades daquelas 59 pessoas que desapareceram, das quais apenas 23 corpos foram encontrados, não sabemos em que estado, e ninguém nunca foi responsabilizado.

Todos os que lá passam, se fecharem os olhos com força, ainda conseguem ver os pequenos botes de salvamento a vaguear o rio no escuro. Os pilares ainda lá estão. Não foi construído nenhum memorial. É um lugar monstruoso, sem fé. Adormece a alma. 

22
Set21

Desafio Arte e Inspiração - Noite Estrelada

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Stary Night de Vincent Van Gogh

 

O José chegou de ir buscar pão fresco e bateu a porta com força. O frio de Dezembro gela ossos! 

- JOSÉÉÉÉ!!!! 

- Credo! Que foi? Onde estás? 

Seguiu a respiração arfante da Maria e foi dar com ela na casa de banho, toda molhada, uma poça enorme de água no chão. 

- Não me digas que rebentou o cano do lavatório outra vez. Xiça! Desta vez chamo o picheleiro. Estou farto destes canos velhos! 

- És mesmo trengo, José, não vês que me rebentaram as águas? 

O José arregalou os olhos e começou a correr de um lado para o outro, parecia tonto "a mala da maternidade, a muda de roupa, o ovo para o carro...". 

- Ó José, pára homem de Deus! Olha, vou tomar um banho rápido que ainda temos tempo. Agora nem sei quando vou poder lavar o cabelo outra vez!  

Pouco depois, passados tormentos a tentar descer as escadas do prédio já velho sem elevador, a entrar no pequeno carro e a tentar sentar-se confortável, já dentro do carro diz o José: 

- Ouve lá, ó Maria, desculpa mas nem consigo pensar direito... para onde vamos? 

- Ai José, tu desgastas-me. Então não ouviste o Dr. Gabriel a falar no Hospital da Estrela? Já anda a dizer isso desde que me disse que estava grávida, Zé! 

Foi um parto sagrado. Uma hora pequenina. O menino era moreninho, cabelo escurinho, 50 cm certos de comprimento e uns rechonchudos três quilos e meio de chichinha. Cheirava a bebé, como todos os outros. A Maria sentiu o turbilhão de emoções que todas as mães sentem e o José derreteu-se por dentro. 

Era já meio da tarde, a noite chegava. Os três primos (quase irmãos) do José estavam de visita. 

- Então, o caminho foi fácil? 

- Era só seguir as setas da Estrela, sabes? - disse o irmão mais novo Baltazar com ironia. 

- Então e o nome do fedelho, já decidiram? - perguntou Gaspar. 

- Jesus - disse Maria, quase soltando um pinguinho de baba de gratidão e comoção, e olhando a criança com carinho. 

- Sério?........... 

- Olha lá, até parece que o teu nome é pouco fora do vulgar! - retorquiu rapidamente o José, em defesa de sua amada Maria, deixando Melchior até um pouco atrapalhado. 

Findas as visitas e entregues os presentes, Maria viu-se sozinha no quarto. Deu graças a Deus pelo sossego. Apenas o ruído dos ares condicionados, que bufavam ar quente e pareciam os mugidos das vacas lá da aldeia. Deitou o seu anjinho no berço, beijou a mãozinha pequenina e voltou a contar os dedinhos todos. Estava tudo certo. Murmurou entre dentes e sorrisos "Estás destinado a grandes coisas, meu filho. Tenho a certeza." 

 

 

 

 

 

 

15
Set21

Desafio Arte e Inspiração - A Onda

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Desafio Arte e inspiração

"A Grande Onda de Kanagawa" de Katsushika Hokusai

"A Grande Onda de Kanagawa" de Katsushika Hokusai

Ela caminhou descalça pelo passadiço de ripas de madeira que dava acesso ao areal. Estava vento e o mar estava bravo. Desceu as pequenas escadas e colocou o pé direito na areia. Estava fria mas sabiam bem as pequenas pedrinhas entre os dedos. 

Caminhou devagarinho em direção ao mar. O vestido rendado branco dançava com o vento e enrolava-se-lhe nas pernas. O cabelo esvoaçava, os caracóis ondulantes e a salitra começava já a entranhar-se no cabelo, que começava a ficar pegajoso.  

O céu estava coberto de nuvens cinzentas e ela pensou que poderia até chover. Aproximou-se devagarinho do mar, queria fazer-lhe uma pergunta mas tinha receio. Ele hoje estava bravo. As ondas batiam fortes na areia, o barulho era quase ensurdecedor mas ela não teve medo.  

Primeiro o dedo grande do pé. A água estava fria, o mar azul escuro quase preto, a espuma envolveu-lhe os tornozelos. E a onda levou a água salgada de volta. Veio mais uma e outra e outra, fortes. Ela não arredou pé. 

Ouvia uma voz meiga ao longe, que lhe acalmava o coração. Pedia-lhe que respirasse fundo e sentisse o corpo a relaxar. Pediu-lhe para imaginar o seu lugar preferido. Ela teve coragem e fechou os olhos. Continuou a sentir a água fria nos pés e sentia que, se o mar quisesse, podia levá-la com uma simples onda bem forte. 

Ficou com os olhos fechados algum tempo, que pareceu uma eternidade e foram apenas breves instantes. Quando os abriu, o mar estava calmo. Muito calmo, sem ondas, o mar enrolava na areia com carinho e o som relaxante tschhhhh tschhhh. Perguntou-lhe “Vou ficar bem, não vou?” 

Ouviu novamente aquela voz tão familiar, que falava com carinho: “Devagarinho, vão mexer os dedos das mãos e dos pés. Respirem fundo, abram os olhos devagarinho. Quem estiver de barriga para cima, leva os joelhos ao peito. Quem estiver de lado, adota a posição fetal e devagarinho senta com as pernas cruzadas. Bom trabalho.” 

A aula terminou.  

 

Participam nno desafio: Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, ConchaCristina AveiroFátima Bento GorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe Fritosetepartidas

 

31
Jul21

Tema 7 - Um padre, um negacionista e o Gustavo Santos, num bar.

Sam ao Luar

https://desafiodospassaros.blogs.sapo.pt/

Em cima do palco, vê-se o que aparenta ser um bar de fraca qualidade. Há mesas redondas de madeira descascada com 2 cadeiras cada uma, mas todas vazias. Um balcão de bar, também de madeira, com tampo em fórmica preta. Por trás, um empregado de bar de calças de fato pretas, desbotadas pelo uso, camisa branca ligeiramente aberta. Tem a barba por fazer e o olhar cansado. Limpa o copo de vidro com um pano de cozinha, evita a todo o custo as manchas. 

Sentadas ao balcão estão já 2 personagens: o Padre Nuno e o negacionista José. Entra em cena o Gustavo Santos. Senta-se numa cadeira de bar, ligeiramente afastado e ouve atentamente. 

Gustavo: - Boa noite, meus senhores.

P. Nuno: -Boaz noitez. 

José: - Nem por isso. 

P. Nuno: - Atão, Zé, outra vez nisso?

José: - A vida não tá fácil. É sempre a mesma coisa todos os dias. Apetece-me mandar tudo pró alto e sair daqui, pá. 

P. Nuno: - óóó ó Xozé, deixa-te disso, pá. Axas qué facil lidar com as senhoras assanhadas da confissão todoz oz diaz? Sabez o que tenho de faxer para cativar as ezmolaz no dia a dia?  Ixto de ser sacristão tem muito que se lhe diga! Querez trocar comigo? 

José: (ri-se com ar maroto) - Não nego, sr. Padre. Não acredito em nada no meio desta merda toda mas não sou burro! Há coisas na vida que não se renuncia. Antes negacionista que desconsolado! 

P. Nuno: - óóó ó Xozé, não digax palavrões! Caraças, amigo! Deux castiga! 

José: - ó sr. Padre, você sabe que eu já fui diagnosticado! Essa cena da religião não existe. Assim como essas tretas das forças gravíticas e universo, isso não existe. É tudo a matrix. Anda aí alguém a mexer os cordelinhos à sua vontade e nós é que nos cagámos todos para viver bem a vida. Desculpe lá... 

O Gustavo Santos intervém na conversa pela primeira vez, em voz rouca e triste. 

Gustavo: - Sr. José, certo? Tem que me dar o contacto dessa sua psicóloga ou psiquiatra ou lá o que é. Ando há meio ano à procura de emprego e já estou um bocado farto disto.  O meu nome é igual a uma “vedeta” qualquer que escreve bonito. Estão sempre à espera que eu diga coisas lindas e que motive toda a gente logo na entrevista. Eu sou engenheiro, carago! Não gosto de pessoas, gosto de máquinas! 

Ficam todos em silêncio durante algum tempo. O Barman não tece palavra e revira os olhos. Olha de soslaio para o relógio. Faltam 5 minutos para acabar a noite, os atores acabam de bebericar as cervejas. Graças a Deus!  

16
Jul21

Desafio dos Pássaros 3.0 - Tema 6

Sam ao Luar

Tema 6: Teoria da conspiração envolvendo Bill Gates, indústria alimentar, Xana Toc Toc e polichinelos. 

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O Bill sacou da última baforada do seu cigarro com sabor a mentol. Estava a suar tanto como a Xana. Tinha sido uma noite bem produtiva: fartou-se de rir ao ver a sua saia farfalhuda e colorida aos saltos, enquanto a Xana fazia... polichinelos. 

Já eram amigos faz tempo e já tinham planos para dominar novamente o mundo. Ele já dominava o mercado dos sistemas operativos nos computadores, faltava o sistema operativo dos telemóveis e tablets (aqueles gajos da Googlix meteram-se no caminho). A Xana tinha tido uma pequena aparição com a sua mala cor de rosa. E foi só isso. 

Agora é que ia ser. A Xana queria as suas pastilhas elásticas TocTocs, com recheio surpresa (que podia ser morango, banana, cola, ou outra coisa qualquer, incluindo sabor a fruta podre, que obrigaria a qualquer indivíduo, adulto ou criança, consumir outro TocToc para eliminar o sabor, a não ser que fosse tripa enfarinhada e o consumidor não gostasse de rojões).  

O Bill queria incluir no recheio a sua mais recente microtecnologia: pequenos vírus eletrónicos que se alojariam nas meninges do cérebro e, progressivamente, iriam alterar os circuitos nervosos neuronais. Os consumidores de TocTocs, num futuro próximo, iriam preferir o sistema operativo "Wandows" nos seus dispositivos móveis, qual varinha mágica do Harry Potter, que lhes desse possibilidades infinitas de felicidade. 

- Então, Bill, temos negócio? 

- Acho que sim, Xana. Vamos dominar o mundo. Faz mais uns polichinelos para mim, fazes? 

A Xana, solícita, sem querer perder outra oportunidade de subir na vida, começou novamente aos saltos. 

 

02
Jul21

Desafio dos Pássaros 3.0 - Tema 5

Sam ao Luar

O Tinder. Aquela aplicação onde ninguém se descreve como realmente é. Onde identidades e sonhos são roubados. Onde somos todos fisicamente desejáveis e psicologicamente somos aquilo que nos der na real gana. Até os astros têm razão...

Ela apresenta-se como fisicamente bem constituída. Cabelos compridos, loiros (pintados, claro!), olhos verdes ou azuis, consoante a luminosidade do dia. É modesta, conservadora, gosta de roupitas curtas, a deixar ver o umbigo e o piercing com diamante lá pendurado. 23 anos de idade, leão, fogosa, já com alguma rodagem.
Ele apresenta-se como jeitoso e espadaúdo. Cabelo encaracolado, mas bem aparado. Barba bem feita, cortada no melhor barbeiro da zona, olhos castanhos e profundos. É senhor de negócios, por isso veste fato e camisa bem passada. 27 anos, sagitário, bem armado.

Ela esqueceu-se de dizer que é bodybuilder, que tem os músculos todos bem evidentes, que faz solário por desporto, que o peso que a máquina que o ginásio carrega já não é suficiente. Ele esqueceu-se de dizer que é anão.

Combinaram encontrar-se no café da moda, lá da freguesia. Pelo Tinder. Ela esqueceu-se de mencionar um modo de a reconhecer. E ele também não perguntou. Ela é a Ana e ele é o João.

Lá no café da freguesia ela perguntou ao emprego de balcão se conhecia o João, 27 anos, sagitário, empresário. Ele, o empregado de balcão olhou-a de alto a baixo, lascivo. Disse que não e pensou que poderia sacar-lhe o número de telefone mais tarde. Ela sentou-se e esperou.

O João chegou e olhou sorrateiramente à volta, procurando uma menina de 23 anos, bem vestida, de top curtinho com o umbigo à mostra. A única menina que viu foi aquela senhora grande e musculada, bronzeada como se tivesse estado no forno mais do que tempo previsto. Sentou-se e esperou.

O tempo passou e ambos desistiram. Pensaram, envergonhados, que o outro não tinha tido coragem de aparecer. Ela, desorientada, acabou por dar o seu número ao empregado de balcão jeitoso. Ele, desiludido, bebeu a sua cerveja, viu as vistas, e continuou a tratar dos seus negócios no telemóvel.

O Tinder. Aquela aplicação que, na realidade, não serve para nada.

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04
Jun21

Não aguento mais contigo.

Sam ao Luar

- Não aguento mais contigo! - afirmei, enquanto o atirei para longe.

Aquele vestido já não me serve, não me fica bem. Já nada me fica bem. Já não me reconheço neste corpo. Desde que o bebé nasceu, que já não consigo olhar para o espelho. A cicatriz ainda me dói... nem a fralda eu consigo trocar. Tenho que me ajoelhar. Dói-me tanto as costas!

Estou tão cansada. Cansada das fraldas, das mamadas, das fraldas outra vez, das papas, noites sem dormir, mamas dormentes, cabeça dormente, costas dormentes... Quero fugir.
Já não me lembro de tomar banho, trocar de roupa, maquilhar-me, sair para trabalhar. Aquele f... despediu-me. Só porque estava grávida! Grande merdoso. Se fosse a esposa dele a ser despedida, ligava para as autoridades. E agora? O que vai ser da minha vida?

Estou feia, triste, dormente por dentro. Eu vi a conversa dele com ela, on line. Acho que ele não sabe que vi. Ele também já não deve gostar de mim, por isso lhe falou assim. Nunca conversou comigo assim. Também precisei tantas vez do seu apoio e ele nunca me encorajou assim. Ele convidou-a para um café. Eu sei que eles trabalham juntos e que ele chega sempre tarde a casa. A viagem é tão curta, porque demora tanto tempo? A noite cai tão cedo e eu conto os minutos todos até ele chegar. Para me sentir acompanhada outra vez... Eu sei que ele não tem saudades minhas.

Eu sou fria. A mãe disse-me que eu era fria e calculista. Ainda era adolescente e ela tinha razão. Nunca me ensinaram a ter mimo nem a dar mimo. Não lhe sei dar mimo e ele queixa-se. Será por isso que já não tem saudades minhas?

Eu sei dar mimo. O meu bebé sabe que eu sei. Aqueles dedinhos tão perfeitinhos e aqueles olhos que só me apetece beijar, olham para mim como quem olha para quem dá mimo. Eu amo-o tanto! Não sabia que era possível. Eu ouço mal... e se ele chora a meio da noite e eu não acordo? Não posso pegar no sono profundo. Estou tão cansada! E se ele precisa de mim?...

Queria tanto mergulhar na banheira. Mergulhar de cabeça e sentir paz e silêncio e sossego... Vou encher a banheira e acabar com isto de uma vez. Espera, ele tem que chegar a casa primeiro. O bebé vai ficar sozinho, pode precisar de mim. Eu tenho que ficar aqui... por enquanto. Ele ainda ficou na festa com os nossos amigos. Ouço os foguetes, mas não tenho ninguém para festejar. Ainda ontem esteve no café com o pessoal. Porque quer estar com eles e não connosco?

Vou abrir aquela garrafa. Já está no frigorífico há tanto tempo, deve estar fresco. Vou adormecer num instante e já não vou sentir mais nada. É isso! Não posso... e se ele chora outra vez?

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