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Sam ao Luar

Sam ao Luar

31
Jul21

A minha face é esquisita e depois?

Sam ao Luar

Em 2007, fui operada a um tumor na cabeça. Duas vezes. Felizmente, era benigno, se fosse maligno não estaria aqui. E apesar de ser benigno, se não fosse descoberto, também não estaria aqui. 

Fui ao oftalmologista, achei que estava a ver mal. Tinha dores de cabeça e tonturas. O médico aconselhou-me uma TAC de urgência, tinha o nervo ocular já inchado (é sinal de pressão intracraniana, não é bom). No dia em que fiz a TAC, nem me deixaram sair do consultório, fui direta para as urgências do hospital, com uma carta de recomendação na mão. 

Tinha um neurinoma do acústico, um tumor (benigno) que cresce à volta no nervo auditivo. Era já muito grande e comprimia-me o tronco cerebral. O médico das urgências disse que podia ter parado de respirar a dormir. 

Fui operada 3 dias depois. 12h de operação. Fiquei com um ligeiro guinchar incomodativo na cabeça. O tempo todo. Fui operada novamente 2 semanas depois. 14h de operação. Fiquei com uma paralisia facial e surda do lado direito. Definitivamente. O tumor era tão grande que para tirar tudo tiveram que me sacrificar o nervo facial. Poderia voltar a crescer, nunca se sabe. 

4 meses depois fui à cirurgia plástica. O médico retirou-me nervo da perna para reconstruir o meu nervo facial. Fiz 1 ano e meio de fisioterapia, para não perder o tónus muscular (a esperança de voltar a mexer os músculos sempre foi pouca). Tenho 5 cicatrizes paralelas na perna esquerda, uma cicatriz no pescoço e uma na cabeça. Bem visíveis. Cicatrizes de guerra, como lhes chamo. 

Não tenho lágrimas no olho direito e tenho que pôr gotas artificias para o resto da vida (posso danificar irremediavelmente a córnea e perder a visão). Uso auscultadores nos 2 ouvidos para não ser incomodada, só preciso de 1. Sou a pessoa que fica sempre do lado direito, porque só ouço à esquerda. Tive que aprender a sorrir e a falar com boa dicção, novamente, e a comer de boca fechada. Bebi café com uma palhinha. A sensação era semelhante à de ter levado uma anestesia no dentista, a baba caia sem eu querer. 

Tive que lidar com todos os olhares incomodativos nos transportes públicos baixando a cabeça para me proteger. Sou professora, tive que lidar com todos os risinhos e troças, e continuar impassível. Tive que aprender a lidar com a pessoa que me olhava do outro lado do espelho. Deixei de tirar fotografias. Tornei-me antissocial não por opção, por obrigação. 

Passado todo este tempo, tenho aprendido a levantar a cabeça outra vez. A olhar nos olhos e a sorrir com vontade. Não tenho a cara esquisita porque nasci assim. Já fui bonita por fora. Agora acho que fiquei mais bonita por dentro.  

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