Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Sam ao Luar

Sam ao Luar

10
Nov21

Desafio Arte e Inspiração - Cabelo perseguido por dois planetas (say what?...)

Sam ao Luar

Desafio Arte e inspiração

Participam no desafio: Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, ConchaCristina AveiroFátima Bento GorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe Fritosetepartidas

Cabelo perseguido por dois planetas de Joan Miró.

Cabelo perseguido por dois planetas por Joan Miró

Sou da opinião que, para tudo na vida, há duas equipas: a que anda de relógio no pulso esquerdo ou direito, as que preferem salgados ou doces, as que gostam mais de praia ou neve. Há ainda aquelas que preferem o nascer do sol ou o pôr do sol. E ainda, mais particularmente na área que me compete (que trabalha na educação) há a equipa das letras e a equipa das ciências (e o terceiro grupo marginal, os indecisos).

Sou da equipa das ciências desde que nasci. Tenho aptidão para os números. Adoro aqueles exercícios de calcular muito, que ocupam uma página inteira. O raciocínio desfia como um novelo. É saudável para a minha mente, deixa-me calma, abstrai-me do resto. Faço exercícios de matemática como terapia de relaxamento, sim, sou assim doente. Gosto de objetividade na minha vida.

Gosto também muito de ler. Principalmente livros de terror, suspense e policial. Adorei estudar certos autores na escola, como por exemplo, Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Percebo a utilidade de estudar línguas estrangeiras e o funcionamento da nossa própria língua. Acho fundamental adquirirmos a capacidade de bem falar e escrever. Nunca percebi (era eu gaiata), no entanto, o intuito de estudar a subjetividade das coisas e acho que o estudo de determinados autores é sobrevalorizado, nos dias que correm. Hoje percebo um bocadinho melhor...

Não quero com isto dizer que o ensino das ciências seja "mais necessário" que o ensino das línguas e humanidades. Como disse, há no mundo duas equipas e as duas são necessárias. Na minha opinião, e após trabalhar com diversas colegas da equipa das línguas, que o conhecimento geral desta área e até mais alargado que o da equipa das ciências. No entanto, ninguém me tira que a equipa das ciências tem um tipo de conhecimento muito mais aprofundado e trabalhado, mais "sagrado". 

Parece-me até, e desculpem a minha arrogância, que converter um elemento da equipa das ciências a estudar humanidades e a sair-se bem é mais fácil do que o contrário. Converter um elemento da equipa das humanidades às ciências matemáticas e físicas, vai dar muito mais trabalho!

Como professora, vejo facilmente e praticamente desde o inicio, a qual das equipas pertence o meu aluno. Há surpresas, claro, e há os indecisos também. Apesar de não fazer parte do meu trabalho (porque venha quem vier, não faz) ajudo-os muitas vezes a escolher o caminho deles: em direção ao seu nascer ou pôr do sol. Trabalho que, hoje em dia, tem muito valor mas infelizmente é muito desvalorizado. 

 

 

 

03
Nov21

Desafio Arte e Inspiração - Ilustração de Moda

Sam ao Luar

Desafio Arte e inspiração

Participam no desafio: Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, ConchaCristina AveiroFátima Bento GorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe Fritosetepartidas

Ilustração de Moda de Almada Negreiros.jpeg

Ilustração de Moda de Almada Negreiros

 

E se me falha a inspiração e eu não consigo escrever nada? A fonte secou, para mim, esta semana.

Por consideração a todos os que participam neste desafio, lamento desiludir-vos e prometo que para a semana me esforçarei devidamente.

Apreciemos apenas a arte contida na pintura. Em silêncio. E imagemos que vivemos naquela época, a época da Coco Channel, dos loucos anos 20, de Fernando Pessoa e Almada Negreiros. A época do cavalheirismo.

 

27
Out21

Desafio Arte e Inspiração - O Beijo

Sam ao Luar

Desafio Arte e inspiração

Participam no desafio: Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, ConchaCristina AveiroFátima Bento GorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe Fritosetepartidas

O beijo de Gustav Klimt.png

O Beijo de Gustav Klimt

Hoje em dia, mais do que nunca, percebemos que o cumprimentar de beijo, principalmente entre pessoas que nem se conhecem, é perfeitamente desnecessário. Cumprimentar de beijo a tia, a prima, o tio bêbado, o tio-avô velho (que nos enche de baba) já não se usa. Sinceramente, acho até mais interessante o "cotobeijo". E muito mais salutar, como é óbvio.

O beijo pode ficar reservado para quem realmente importa. Dar um beijo pode começar a ter muito mais significado. Já não é o simples cumprimentar, é o demonstrar afetividade genuína. É manifestar carinho por quem merece.

O ternurento beijo de boa noite aos filhos ganha torna-se um cobertor mágico de proteção contra os pesadelos e a promessa de que o dia irá chegar novamente. O beijo de coragem ao irmão. O beijo ao amigo é a confirmação de que ele realmente é importante. O beijo ao companheiro de vida dá borboletas na barriga, arrepia os pelos e faz cócegas na nuca. É o prenúncio de algo mais.

O abraço, sim, esse faz falta. Muita falta. O desejo de contacto e afeto é algo de que nunca pensamos vir a precisar. O isolamento, forçado ou não, torna-nos apáticos, insensíveis, desregulados. O homem é um ser social. Precisamos contacto social, precisamos de ser necessários e sentirmo-nos necessários. Aquele abraço ao pai e à mãe, ao aluno, ao amigo de longa data que já não vemos ao mesmo tempo, ao primo que está emigrado, ao treinador que nos mantém saudáveis física e psicologicamente. Um abraço ao próximo, sentir o coração a bater com coração porque, afinal, estamos vivos. E todos aqueles abraços que ainda gostaríamos de dar a quem cá está, a quem já não está.

Não é preciso falar, o abraço fala por si em silêncio.

 

 

 

20
Out21

Desafio Arte e Inspiração - Sobreiro

Sam ao Luar

Desafio Arte e inspiração

Participam no desafio: Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, ConchaCristina AveiroFátima Bento GorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe Fritosetepartidas

Sobreiro de D. Carlos.jpeg

Sobreiro de D. Carlos de Bragança

Lá na aldeia, os homens preparavam-se para o descortiçamento dos sobreiros. Corria já o mês de Maio e o tempo estava quente. O José arrependeu-se de ter vestido aquela camisa de flanela mas era confortável para o trabalho que se avizinhava e, além disso, sabia que a Maria ia estar perto. Queria sentir-se apresentável.

Os homens seguiram para o sobreiral, munidos com as suas "armas" de trabalho. Era, sem dúvida, uma manifestação de virilidade. Era coisa bonita de se ver.

A Maria não conseguia parar de fitar o José ao longe e esperou pacientemente pela hora da pausa. Saiu sorrateiramente da sua sombra agradável e da companhia das senhoras da aldeia que, enquanto faziam as suas rendas de bilros, conversavam sobre a vida alheia. Piscou-lhe o olho.

Mesmo ao longe, o José adivinhou-lhe o pensamento e, com a desculpa de que ia verter águas, saiu da beira dos homens que lanchavam regueifa com chourição.

Encontraram-se junto à fonte, lá mais longe. Ela estava corada, não só do calor, mas do nervosismo e da ansiedade de se aproximar do José. Ele estava com saudades de tocar na mão dela. "Como estás?", perguntou ela baixinho. "Estás linda!", respondeu ele, roubando-lhe um beijo. Não disseram mais nada. Olharam profundamente nos olhos um do outro, adivinhando todo um futuro que os aguardava. Sentiram a brisa na cara. De mãos dadas, o tempo passou rápido demais.

José! - ouviram chamar. "Até logo, princesa". Ela corou muito. Refrescaram-se na água da fonte, para não dar a entender. Cada um regressou ao seu trabalho, aguardando impacientemente pelo dia de amanhã e por aquele pequeno momento tão grande de amor.

 

 

 

13
Out21

Desafio Arte e Inspiração - El Sueño

Sam ao Luar

Desafio Arte e inspiração

Participam no desafio: Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, ConchaCristina AveiroFátima Bento GorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe Fritosetepartidas

El Sueno de Frida Khalo.jpeg

El Sueño por Frida Khalo

A minha infância passei-a em casa dos avós maternos com os meus primos. Sou da geração que nasceu na década de 80, éramos felizes e livres. Divertíamo-nos a atirar água aos carros que passavam com uma bisnaga, a molhar os pés no tanque grande no verão, a subir ao limoeiro que existia no meu do galinheiro e sentávamo-nos na cama grande a comer bolachas Maria e a ver a Rua Sésamo. Esmurrávamos os joelhos a andar de bicicleta e a cair, e aprendíamos assim a lidar com a dor e a vergonha de ter caído. Era a minha "casa". A minha avó fazia cevada com pão torrado com manteiga no fogão com bico de gás, ficava torrado mas não faz mal, e ainda me lembro do cheiro.

Crescemos, perdemos muita coisa. Deixamos de ser princesas, piratas, polícias e ladrões. 

Um dia a minha irmã liga-me, disse que a Cinda estava mal. Ela já estava muito doente há algum tempo. Nesse final de dia, voltei de novo à minha casa. Ela tinha os pés frios, calcei-lhe umas meias quentinhas. Sentei-me ao seu lado, peguei-lhe na mão. Agradeci-lhe por ter tomado tão bem conta de nós e ter sido uma boa avó. Ajudei o meu avô a dar-lhe a sopa.

Em casa, ao adormecer o meu filho, cantei-lhe a música "Se essa rua fosse minha" para adormecer. A minha avó faleceu doente nessa noite. Faleceu, em mim, uma parte do meu coração. Quanto ao meu avó, faleceu mais tarde, com saudades da minha avó com certeza. Eu estou feliz que eles estejam finalmente juntos. Eu sei que quando for, vou para junto deles. 

A música, quando a canto hoje, choro com saudades e sinto os meus avós junto a mim. Ensinei, entretanto, uma oração ao meu filho, que aprendi algures no tempo, e adaptei. Tenho a certeza que sempre que a diz os meus avós estão junto dele. Não sou crente, mas acredito.

"Anjo da Guarda, minha companhia,

Guarda a minha alma, de noite e de dia,

e os meus sonhos também."

 

 

29
Set21

Desafio Arte e Inspiração - O Grito

Sam ao Luar

Desafio Arte e inspiração

Participam no desafio: Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, ConchaCristina AveiroFátima Bento GorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe Fritosetepartidas

O Grito de Edvard Munch.jpeg

O Grito de Edvard Munch

Para quase toda a gente neste mundo, o ano de 2001 foi marcado pela queda das Torres Gémeas, nos Estados Unidos. Uma tragédia sem igual. As imagens são impressionantes, toda a gente recorda com amargura. Foi o ano em que o mundo mudou a todos os níveis: economica, política e socialmente. De repente, passamos a odiar um povo que nem sequer conhecíamos. Guerras foram feitas, inocentes morreram, outros tantos enriqueceram e o planeta continuou a girar.

O ano de 2001 foi também marcado por um evento que apenas um povo se lembra e, mesmo assim, apenas um punhado de pessoas se recorda. A Queda da Ponte de Entre-os-Rios. Foi em Março, antes da queda das torres e é natural que um dos eventos tenha escondido o outro. Bem no fundo, no recanto obscuro da memória.

O ser humano tem a capacidade de conseguir colocar-se no lugar do próximo e sentir o que ele sente. Com esforço, consegue vivenciar tanto a alegria como a tristeza e a dor. Chama-se empatia, mas nem todos querem treiná-la. Por preguiça. É doloroso sentir as dores do outro. Quero com isto dizer que o nosso esforço permite-nos colocar no lugar de dois indivíduos diferentes: aquele que morreu dentro de uma torre em queda e que morreu rápido. Tragicamente. Ou aquele que de repente lhe viu o chão fugir debaixo dos pés, no escuro, caiu na água fria, morreu agonizando vendo os seus amigos ou família a agonizar também. E nunca mais apareceu.

Os familiares, amigos, conterrâneos daquele concelho preso junto ao rio Douro, ainda gritam em silêncio junto aos destroços de uma vida destruída pelas saudades daquelas 59 pessoas que desapareceram, das quais apenas 23 corpos foram encontrados, não sabemos em que estado, e ninguém nunca foi responsabilizado.

Todos os que lá passam, se fecharem os olhos com força, ainda conseguem ver os pequenos botes de salvamento a vaguear o rio no escuro. Os pilares ainda lá estão. Não foi construído nenhum memorial. É um lugar monstruoso, sem fé. Adormece a alma. 

22
Set21

Desafio Arte e Inspiração - Noite Estrelada

Sam ao Luar

Desafio Arte e inspiração

Participam no desafio: Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, ConchaCristina AveiroFátima Bento GorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe Fritosetepartidas

.Stary night de Vincent Van Gogh.jpeg

Stary Night de Vincent Van Gogh

 

O José chegou de ir buscar pão fresco e bateu a porta com força. O frio de Dezembro gela ossos! 

- JOSÉÉÉÉ!!!! 

- Credo! Que foi? Onde estás? 

Seguiu a respiração arfante da Maria e foi dar com ela na casa de banho, toda molhada, uma poça enorme de água no chão. 

- Não me digas que rebentou o cano do lavatório outra vez. Xiça! Desta vez chamo o picheleiro. Estou farto destes canos velhos! 

- És mesmo trengo, José, não vês que me rebentaram as águas? 

O José arregalou os olhos e começou a correr de um lado para o outro, parecia tonto "a mala da maternidade, a muda de roupa, o ovo para o carro...". 

- Ó José, pára homem de Deus! Olha, vou tomar um banho rápido que ainda temos tempo. Agora nem sei quando vou poder lavar o cabelo outra vez!  

Pouco depois, passados tormentos a tentar descer as escadas do prédio já velho sem elevador, a entrar no pequeno carro e a tentar sentar-se confortável, já dentro do carro diz o José: 

- Ouve lá, ó Maria, desculpa mas nem consigo pensar direito... para onde vamos? 

- Ai José, tu desgastas-me. Então não ouviste o Dr. Gabriel a falar no Hospital da Estrela? Já anda a dizer isso desde que me disse que estava grávida, Zé! 

Foi um parto sagrado. Uma hora pequenina. O menino era moreninho, cabelo escurinho, 50 cm certos de comprimento e uns rechonchudos três quilos e meio de chichinha. Cheirava a bebé, como todos os outros. A Maria sentiu o turbilhão de emoções que todas as mães sentem e o José derreteu-se por dentro. 

Era já meio da tarde, a noite chegava. Os três primos (quase irmãos) do José estavam de visita. 

- Então, o caminho foi fácil? 

- Era só seguir as setas da Estrela, sabes? - disse o irmão mais novo Baltazar com ironia. 

- Então e o nome do fedelho, já decidiram? - perguntou Gaspar. 

- Jesus - disse Maria, quase soltando um pinguinho de baba de gratidão e comoção, e olhando a criança com carinho. 

- Sério?........... 

- Olha lá, até parece que o teu nome é pouco fora do vulgar! - retorquiu rapidamente o José, em defesa de sua amada Maria, deixando Melchior até um pouco atrapalhado. 

Findas as visitas e entregues os presentes, Maria viu-se sozinha no quarto. Deu graças a Deus pelo sossego. Apenas o ruído dos ares condicionados, que bufavam ar quente e pareciam os mugidos das vacas lá da aldeia. Deitou o seu anjinho no berço, beijou a mãozinha pequenina e voltou a contar os dedinhos todos. Estava tudo certo. Murmurou entre dentes e sorrisos "Estás destinado a grandes coisas, meu filho. Tenho a certeza." 

 

 

 

 

 

 

15
Set21

Desafio Arte e Inspiração - A Onda

Sam ao Luar

Desafio Arte e inspiração

"A Grande Onda de Kanagawa" de Katsushika Hokusai

"A Grande Onda de Kanagawa" de Katsushika Hokusai

Ela caminhou descalça pelo passadiço de ripas de madeira que dava acesso ao areal. Estava vento e o mar estava bravo. Desceu as pequenas escadas e colocou o pé direito na areia. Estava fria mas sabiam bem as pequenas pedrinhas entre os dedos. 

Caminhou devagarinho em direção ao mar. O vestido rendado branco dançava com o vento e enrolava-se-lhe nas pernas. O cabelo esvoaçava, os caracóis ondulantes e a salitra começava já a entranhar-se no cabelo, que começava a ficar pegajoso.  

O céu estava coberto de nuvens cinzentas e ela pensou que poderia até chover. Aproximou-se devagarinho do mar, queria fazer-lhe uma pergunta mas tinha receio. Ele hoje estava bravo. As ondas batiam fortes na areia, o barulho era quase ensurdecedor mas ela não teve medo.  

Primeiro o dedo grande do pé. A água estava fria, o mar azul escuro quase preto, a espuma envolveu-lhe os tornozelos. E a onda levou a água salgada de volta. Veio mais uma e outra e outra, fortes. Ela não arredou pé. 

Ouvia uma voz meiga ao longe, que lhe acalmava o coração. Pedia-lhe que respirasse fundo e sentisse o corpo a relaxar. Pediu-lhe para imaginar o seu lugar preferido. Ela teve coragem e fechou os olhos. Continuou a sentir a água fria nos pés e sentia que, se o mar quisesse, podia levá-la com uma simples onda bem forte. 

Ficou com os olhos fechados algum tempo, que pareceu uma eternidade e foram apenas breves instantes. Quando os abriu, o mar estava calmo. Muito calmo, sem ondas, o mar enrolava na areia com carinho e o som relaxante tschhhhh tschhhh. Perguntou-lhe “Vou ficar bem, não vou?” 

Ouviu novamente aquela voz tão familiar, que falava com carinho: “Devagarinho, vão mexer os dedos das mãos e dos pés. Respirem fundo, abram os olhos devagarinho. Quem estiver de barriga para cima, leva os joelhos ao peito. Quem estiver de lado, adota a posição fetal e devagarinho senta com as pernas cruzadas. Bom trabalho.” 

A aula terminou.  

 

Participam nno desafio: Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, ConchaCristina AveiroFátima Bento GorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe Fritosetepartidas

 

31
Jul21

Tema 7 - Um padre, um negacionista e o Gustavo Santos, num bar.

Sam ao Luar

https://desafiodospassaros.blogs.sapo.pt/

Em cima do palco, vê-se o que aparenta ser um bar de fraca qualidade. Há mesas redondas de madeira descascada com 2 cadeiras cada uma, mas todas vazias. Um balcão de bar, também de madeira, com tampo em fórmica preta. Por trás, um empregado de bar de calças de fato pretas, desbotadas pelo uso, camisa branca ligeiramente aberta. Tem a barba por fazer e o olhar cansado. Limpa o copo de vidro com um pano de cozinha, evita a todo o custo as manchas. 

Sentadas ao balcão estão já 2 personagens: o Padre Nuno e o negacionista José. Entra em cena o Gustavo Santos. Senta-se numa cadeira de bar, ligeiramente afastado e ouve atentamente. 

Gustavo: - Boa noite, meus senhores.

P. Nuno: -Boaz noitez. 

José: - Nem por isso. 

P. Nuno: - Atão, Zé, outra vez nisso?

José: - A vida não tá fácil. É sempre a mesma coisa todos os dias. Apetece-me mandar tudo pró alto e sair daqui, pá. 

P. Nuno: - óóó ó Xozé, deixa-te disso, pá. Axas qué facil lidar com as senhoras assanhadas da confissão todoz oz diaz? Sabez o que tenho de faxer para cativar as ezmolaz no dia a dia?  Ixto de ser sacristão tem muito que se lhe diga! Querez trocar comigo? 

José: (ri-se com ar maroto) - Não nego, sr. Padre. Não acredito em nada no meio desta merda toda mas não sou burro! Há coisas na vida que não se renuncia. Antes negacionista que desconsolado! 

P. Nuno: - óóó ó Xozé, não digax palavrões! Caraças, amigo! Deux castiga! 

José: - ó sr. Padre, você sabe que eu já fui diagnosticado! Essa cena da religião não existe. Assim como essas tretas das forças gravíticas e universo, isso não existe. É tudo a matrix. Anda aí alguém a mexer os cordelinhos à sua vontade e nós é que nos cagámos todos para viver bem a vida. Desculpe lá... 

O Gustavo Santos intervém na conversa pela primeira vez, em voz rouca e triste. 

Gustavo: - Sr. José, certo? Tem que me dar o contacto dessa sua psicóloga ou psiquiatra ou lá o que é. Ando há meio ano à procura de emprego e já estou um bocado farto disto.  O meu nome é igual a uma “vedeta” qualquer que escreve bonito. Estão sempre à espera que eu diga coisas lindas e que motive toda a gente logo na entrevista. Eu sou engenheiro, carago! Não gosto de pessoas, gosto de máquinas! 

Ficam todos em silêncio durante algum tempo. O Barman não tece palavra e revira os olhos. Olha de soslaio para o relógio. Faltam 5 minutos para acabar a noite, os atores acabam de bebericar as cervejas. Graças a Deus!  

16
Jul21

Desafio dos Pássaros 3.0 - Tema 6

Sam ao Luar

Tema 6: Teoria da conspiração envolvendo Bill Gates, indústria alimentar, Xana Toc Toc e polichinelos. 

 https://desafiodospassaros.blogs.sapo.pt/

O Bill sacou da última baforada do seu cigarro com sabor a mentol. Estava a suar tanto como a Xana. Tinha sido uma noite bem produtiva: fartou-se de rir ao ver a sua saia farfalhuda e colorida aos saltos, enquanto a Xana fazia... polichinelos. 

Já eram amigos faz tempo e já tinham planos para dominar novamente o mundo. Ele já dominava o mercado dos sistemas operativos nos computadores, faltava o sistema operativo dos telemóveis e tablets (aqueles gajos da Googlix meteram-se no caminho). A Xana tinha tido uma pequena aparição com a sua mala cor de rosa. E foi só isso. 

Agora é que ia ser. A Xana queria as suas pastilhas elásticas TocTocs, com recheio surpresa (que podia ser morango, banana, cola, ou outra coisa qualquer, incluindo sabor a fruta podre, que obrigaria a qualquer indivíduo, adulto ou criança, consumir outro TocToc para eliminar o sabor, a não ser que fosse tripa enfarinhada e o consumidor não gostasse de rojões).  

O Bill queria incluir no recheio a sua mais recente microtecnologia: pequenos vírus eletrónicos que se alojariam nas meninges do cérebro e, progressivamente, iriam alterar os circuitos nervosos neuronais. Os consumidores de TocTocs, num futuro próximo, iriam preferir o sistema operativo "Wandows" nos seus dispositivos móveis, qual varinha mágica do Harry Potter, que lhes desse possibilidades infinitas de felicidade. 

- Então, Bill, temos negócio? 

- Acho que sim, Xana. Vamos dominar o mundo. Faz mais uns polichinelos para mim, fazes? 

A Xana, solícita, sem querer perder outra oportunidade de subir na vida, começou novamente aos saltos. 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub