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Sam ao Luar

Sam ao Luar

18
Jan22

52 semanas de 2022 - uma memória

Aqueles pontapés da vida...

Sam ao Luar

Desafio de Escrita - 52 semanas de 2022

Gostava de partilhar uma memória feliz. Mas não.

Hoje vou partilhar uma memória de uma situação alarmante, que acontece de certeza com muitas mulheres por esse mundo fora. É uma injustiça. Deveria ser ilegal. Tira-nos o tapete debaixo dos pés, desiquilíbra-nos. A nossa tentação é cair desamparada no chão. No entanto, as mulheres levantam-se e procuram outro tapete. Mais uma vez.

Trabalhei algum tempo numa empresa na qual desempenhava uma função que nada tinha a ver com a minha formação. Acabei por gostar do trabalho. Considero que me tornei boa naquilo que fazia, a ponto de me proporem o contrato a termo, com renovações automáticas, como manda a lei, até à entrada nos quadros da empresa. O meu contrato foi renovado duas vezes. 

Estava grávida. Trabalhei até às 38 semanas. Não ia à casa de banho muitas vezes, trabalhava maioritariamente sentada, a falta de mobilidade não era um problema. Comia e bebia nas horas devidas e não mais. Entretanto, meti licença de maternidade. 5 meses, que são meus de direito e o meu bebé nasceu em Janeiro. É fazer as contas...

Lembro-me perfeitamente que o meu contrato acabava a 30 de Maio. 15 dias antes fui chamada. O meu contrato não iria ser renovado pela 3a vez, logo, não iria ficar efetiva na empresa. Pelo contrário, fiquei desempregada, com um pequeno de meio ano nos meus braços, sem perspetivas, desmoralizada, injustiçada. Eu sei que trabalhava bem, que cumpria os objetivos e fazia mais do que aquilo que inicialmente me estava destinado. Aprendi o trabalho, desempenhei-o melhor que bem. 

Tenho a certeza que o empregador não queria nos quadros da empresa um "mãe", com direito a horário de amamentação, faltas justificadas por assistência à família e com outras responsabilidades que, de repente, passei a ter. Tenho a certeza que o empregador não queria passar um bom funcionário à efetividade, porque isso traz outro tipo de encargos à empresa. Tenho a certeza que o empregador não fez nada de ilegal, porque não foi uma rescisão de contrato. Foi uma não renovação no tempo certo.

Se me senti enraivecida? Sim. Se me senti desolada e deitada fora como lixo? Também. Se me senti desamparada e com medo do futuro? Óbvio. Se continuei a procurar, outra e outra vez, começar do início, tudo de novo? Não poderia ser de outra maneira. 

Quem passa por este tipo de violência emocional resigna-se mas aprende. Aprende que o trabalho não é tudo, que a família está em casa. Aprende que os colegas de trabalho nem sempre são amigos e que os pontapés no rabo são gratuitos. 

 

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