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Sam ao Luar

Sam ao Luar

01
Jul21

Fui vacinada e sobrevivi.

Sam ao Luar

Ontem fui eu a feliz contemplada com a sorte grande: fui vacinada. Nunca uma geração se sentiu tão feliz com uma picada! 

Foi uma sucessão estranha de sentimentos. Primeiramente, senti-me triste. Como é possível que um "ser", que nem sequer é considerado ser vivo e que não se enquadra em nenhuma das classificações existentes de Whittaker (#teamscience) tenha feito tamanho estrago?

Os virús são tão somente cápsulas proteicas com um ácido nucleico dentro (DNA ou RNA), cuja única função é apropriar-se indevidamente da capacidade replicativa das células que infeta e, indevidamente, sem permissão, pô-las a copiar e a produzir mais vírus bebés. Bolas! Se Darwin fosse vivo, daria voltas toda a noite na cama. Então o objetivo primordial da vida não era a reprodução para dar continuidade às espécies?

Depois senti-me um pouco que indignada. Em fila, ordeiramente e em silêncio, pareciamos todos gado em direção à matança, em direção ao corredor da morte. Foi muito estranho este sentimento e comecei a pensar em todas as teorias da conspiração. E se fosse mesmo isso? E se os estados tivessem feito um complô para instalar em nós circuitos nanotecnológicos de rastreamento? Ou então, quando os recursos da mãe natureza já não forem suficientes, matam metade da população à custa desta cápsula microscópica de veneno que nos injectaram, com o objectivo de salvar o planeta Terra.

No entanto, via-se em todos os rostos a expectativa de um futuro um bocadinho melhor. 

Quero dar os parabéns a todos os profissionais, independentemente da sua área, que lá estavam. O tempo de espera foi pouco, tudo correu ordeiramente, planeado ao pormenor. De repente, todo o português aprendeu a respeitar o espaço do próximo (se esta situação toda serviu para alguma coisa, foi para a população mundial aprender a circular aem filinha indiana!). A enfermeira que me comtemplou com o prémio confidenciou-me que marcavam, só naquele centro de vacinação, 4 utentes ao minuto! E que, ao minuto, se vacinavam muitos mais. Respeito!

Daqui a uns anitos diremos aos nossos netos "eu sou do tempo em que apareceu o Covid". E com orgulho diremos que passamos quarentenas, isolamentos, dificuldades a todos os níveis, e sobrevivemos. 

Não quero atirar areia para os olhos de ninguém, mas continuo a ter a esperança de que vamos ficar todos (mais ou menos) bem. 

 

18
Jun21

Desafio dos Pássaros - Caramba, quase que conseguia!

Sam ao Luar

https://desafiodospassaros.blogs.sapo.pt/

            O Dr. Roberto olhou para o relógio. 12h15. Já era a terceira vez que entrava naquela sala fria hoje. “Morrem sempre em trios”, pensou ele.
            O Dr. Roberto é tanatologista. Olhou para o corpo sem vida estendido na marquesa. As primeiras vezes que o fez, fê-lo com alguma relutância, como se estivesse a profanar o corpo de alguém. Hoje em dia, e sendo ele médico de grande experiência e renome, fá-lo como assim deve ser: sem sentimento algum envolvido.
            - Vamos a isto. É para acabar antes da 1, que tenho almoço marcado com a Camila.
            - Sim, Dr. Penso que vai ser fácil.
            Ligou o equipamento de gravação. “12h16. Indivíduo do sexo masculino, 84 anos de idade. Provável causa de morte: enfarte do miocárdio”.
            - Sabrina, bisturi.
            - Sim, Dr.
            Começou por traçar a abertura em Y, tão característica das autópsias. Cuidadosamente, e com a destreza de mestre, começou a separar todos os órgãos internos, intactos e a pesá-los um a um. O sangue, ainda que coagulado, devido ao rigor mortis, começou a acumular-se na marquesa metálica e a escorrer para o chão. Era assim mesmo que normalmente acontecia. Aquela sala fria, toda revestida a tijoleira branca, com grades no chão, concebida para posteriormente alguém lavar tudo à mangueirada.
            - Coração, 300g. Coloração e aparência normal. Fígado, 1200g. Coloração e aparência normal. Pulmão direito, 1000g...
            - Dr.,…
            - Eu sei, Sabrina. Isto não está bem. Verifica o peso novamente, por favor.
            - É 1Kg, Dr. Parece duro, este pulmão.
            - Bolas. Tira amostras dos outros órgãos todos e envia para o laboratório. Histologia e toxicologia, o normal. Este vou abri-lo já...
            A sua curiosidade e excitação começaram a subir. “Isto afinal vai ser interessante!” Começou a abrir o pulmão direito, devagarinho, com gentileza. “Não quero estragar o que está cá dentro.”
             - Dr., não é possível....
             - Olá! Esta nunca tinha visto! Já tinha ouvido falar, mas ver... espetáculo! Tira fotos, Sabrina. Este vai para artigo.
            Dentro do pulmão direito do Sr. Acácio, porque agora já se sabe o seu nome, estava um feijoeiro, recém-criado. O Sr. Acácio, provavelmente engoliu um feijão mal cozinhado, que viajou para o trato errado e seguiu o do sistema respiratório, alojando-se no seu pulmão. O ambiente é quente, escuro e húmido, propício à germinação da semente.
            - Sabrina, tesoura. Quero cortar um pedaço desta beleza e está preso.
            - Sim, Dr. Precisa de saco de amostra?
            - Não, este vai para o frasco no museu.
            - Sr. Dr., são 13 e 15. A D. Camila já deve estar impaciente à espera.
            - Caramba, quase que conseguia!

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